Aos 92 anos, Cecília Mendes, conhecida como “Cila da Pedra”, grande professora de outrora, permanece sendo motivo de orgulho para nossa terra. Nasceu em novembro de 1916, no antigo povoado da Pedra, próximo a Morro Agudo e Curral. Naquela época, residiam, ali, algumas famílias com grau de parentesco ou envolvidas pelos laços da amizade. Era o tempo do cultivo da cana-de-açucar, do algodão, do milho, da mandioca, da produção de polvilho e farinha. Tempo dos engenhos, da criação de gado e de porcos. Época da água buscada no córrego, da roupa lavada às margens em água corrente. Tempo das serenatas nas noites de luar, da prosa no fim do dia, da fogueira, das caças. Época da lamparina, do lampião, do fogão a lenha. Neste contexto, nasceu Cecília, filha de Maria Bernadete de Jesus e Marcelino dos Santos. Neta de Antônio Cornélio dos Santos e Maria Joaquina de Jesus. Irmã de Ozídia, Blandina, Maria, Conceição, Augusto, Antônio e José Marcelino.
O que nos faz tecer palavras sobre uma mulher humilde nascida nas primeiras décadas do século passado? Cecília Mendes fez e faz história. Ela deu a conhecer a leitura a centenas e centenas de crianças numa época em que a educação acontecia com dificuldade. Sem os materiais didáticos de hoje, esta mulher concedeu formação educacional a muitos sangonçalenses. Sem livros de pesquisa e sem internet, ela mostrou o mundo, tal como conhecia, àquelas crianças de ontem que hoje são nossos pais, avós, ou bisavós. A pé, ela saía da Pedra em direção aos Venâncios para ensinar crianças de toda a redondeza. Muitos anos se passaram e ela foi lecionar na comunidade da Prata de Baixo. Cecília conta, orgulhosamente, que exercia o magistério com muito prazer. E diz que as dificuldades não eram nada diante da alegria de ver alunos lendo, escrevendo e dominando a matemática.
Onde está esta mulher hoje? Vive, como sempre viveu, no anonimato, na simplicidade de sua residência, longe dos focos de atenção. Aos 92 anos, está perfeitamente lúcida, com um vocabulário aperfeiçoado. Gosta de ler, sobretudo a Bíblia, sem precisar de óculos. Decora salmos, o que certamente colabora para que seus neurônios permaneçam reativados. Gosta de conversar, de contar histórias, lembra com detalhes do passado, mas também gosta de ouvir e está atenta à novidade. É uma mulher religiosa, fortalecida pela oração. É fã das músicas e palestras de Fábio de Melo. Sua companhia são as lembranças. Seus afetos, os amigos e familiares. Qualquer palavra de congratulação dirigida a ela será pequena diante de quase um século de vivência. Mesmo na limitação das palavras, vão nossos cumprimentos e gratidão à Professora Cecília. Professora de ontem e exemplo de sempre.
Helmo Amaral





